terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Um Desejo para 2018: Morrer

Ano novo. Muita coisa acontece. Novos começos. Mas de alguma forma, sempre tem algo que permanece. O virar de ano é muitas vezes uma ilusão: A única coisa que muda de fato são as datas do calendário, e a certeza de que de alguma forma, cada dia é uma oportunidade para recomeçar - ou para os que estão em Cristo, de continuar esse recomeço que ele nos oferece.

É por conta dessa descontinuidade tão continuada que talvez eu tenha receio desses propósitos de ano novo. Existe sempre essa paulatina sensação de que agora vai, de que esse ano vai ser diferente, mas passasse os dias e vemos que de fato tudo continua o mesmo. Por outro lado essa demarcação nos lembra da impiedosa marcha do tempo, que silenciosamente nos traga e conduz para o destino que é certo, mas que sempre receamos: A Morte.

Talvez seja por isso que as escrituras nos orienta a aprender a contar os nossos dias (salmo 90) e nos lembra que há mais sabedoria em ir a um velório do que em uma festa (Eclesiastes 7). Há sabedoria em ver o tempo passar e reconhecer o fato inexorável da morte. Mas há ainda mais sabedoria quando diante deste fato você decide olhar para dentro de si e se perguntar: O que eu tô fazendo com a minha vida?

O fato é que vamos morrer. E depois da morte há uma eternidade que vai refletir justamente aquilo que vivemos nesta vida. Essa é a questão que me foi colocada no ultimo livro que li  em 2017 - que também é o primeiro de 2018: Não Jogue sua vida fora! - do Piper. A questão é simples: Será que este tempo que Deus nos deu, não estamos gastando de forma errada? Será que no afã de aproveitar tanto o fato de que estamos vivos, não nos esqueçamos da palavra que nos dizPorque aquele que quiser salvar a sua vidaperdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á (Mateus 16.25).

Diz-se que Bonhoeffer tinha uma frase: "Quando Cristo chama um homem, ele o convida a vir e a morrer". E olhando pra minha vida, Fico pensando: Será que eu tenho morrido o suficiente? Será que a forma como gasto o meu tempo, minhas energias, meus projetos pessoais são uma forma de mostrar ao mundo que o morrer pra mim e o viver pra Cristo são melhores que a própria vida? E é triste perceber que não é bem assim. Parece que sempre existe um resíduo do velho homem, espreitando um pouco atrás da porta, pronto pra querer tomar o controle a qualquer desatenção. 

O fato é que Cristo é real. Sua redenção é real. E por que são reais, são coisas pelas quais valem a pena viver e morrer - de tal maneira que todo o resto parece se desvanecer diante da perspectiva da Glória de Cristo. Toda a nossa vida deveria ganhar um novo sentido por conta disso. E este sentido se encontra no fato de que agora não mais nós vivemos, mas Cristo vive em nós. E a vida dele é algo pelo qual se deve viver e morrer - mais do que qualquer ideal de justiça e igualdade que a nossa sociedade secular tente nos vender. 

Por isso, a minha meta pra 2018 - que na verdade é pra toda a vida é pura e simplesmente morrer. Morrer pra mim mesmo e pros meus fúteis sonhos de felicidade pessoal - por que felicidade mesmo é estar em Cristo. Morrer. E a cada dia que passa, morrer um pouquinho mais. Até que tudo o que sobre seja apenas Cristo. 







segunda-feira, 6 de março de 2017

Ei, não é sobre você!

Outro dia estava vendo um vídeo desses que passa pelo Facebook. Era um desses vídeos em que um cara lia um trecho da bíblia e comentava alguma coisa. Eu vi atentamente o vídeo, o suficiente para perceber que apesar do cara não falar nenhuma heresia (pelo menos, não nenhuma detectável pelo sensor), havia algo me incomodando no discurso dele. E então percebi o que era. Era um vídeo sobre Deus, que no fim das contas não era exatamente sobre Deus. Era sobre nós. Era sobre eu.

Alguns talvez vão dizer que eu estou exagerando. Não gente, eu sei muito bem que existe algo na bíblia que fala sobre nós. A bíblia nos fala sobre nossos problemas, sobre nossas mazelas e sobre nossos pecados. Ela nos orienta em muitas questões de nossas vidas. Ela nos ensina sobre muitas promessas que Deus reserva àqueles que estão ligados nele. Mas até essas coisas, nenhuma delas é verdadeiramente sobre nós. Vivemos em um tempo em que nos supervalorizamos. Achamos basicamente que estas coisas são sobre nós . Mas nunca foram.

Quando Deus liberta a Israel, e este povo está às portas da terra santa, Deus deixa bastante claro para eles, que não é exatamente sobre Eles esta grande obra de salvação:

“Pois vocês são um povo santo para o Senhor, o seu Deus. O Senhor, o seu Deus, os escolheu dentre todos os povos da face da terra para ser o seu povo, o seu tesouro pessoal. O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, pois vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi porque o Senhor os amou e por causa do juramento que fez aos seus antepassados. Por isso ele os tirou com mão poderosa e os redimiu da terra da escravidão, do poder do faraó, rei do Egito. Saibam, portanto, que o Senhor, o seu Deus, é Deus; ele é o Deus fiel, que mantém a aliança e a bondade por mil gerações daqueles que o amam e guardam os seus mandamentos.” Deuteronômios 7.6-9.

Observe que não é por quem Israel era que Deus os libertou da terra do Egito. Era sobre Deus ter feito uma promessa e ter sido fiel para cumprir. Era sobre Ele amar a Israel. Era sobre Ele se manifestar graciosamente.

Do mesmo modo Deus nos salva hoje, não por nossa causa, mas por causa dEle próprio. Por que Deus por meio de Israel começou uma obra de redenção no mundo. Esta obra atingiu seu ponto mais alto em Cristo Jesus, que nos salva e nos liberta do poderio do pecado.  E este mesmo Deus que se recusa a deixar de mão a sua criação e que nos liberta de nossos pecados, nos faz agora co-participantes com ele do ministério de reconciliação (2Co 5.18).


É neste ponto que precisamos reavaliar a posição que nos colocamos neste grande panorama. Não estou dizendo que Deus não se interessa por seus projetos pessoais.  Ele se interessa, mas não por que esses projetos são seus, mas por que deveriam ser dEle! Não estou dizendo que Deus não está nem ai para o seu sofrimento, Ele está a ponto de ter enviado seu Filho na Cruz por causa dele. Mas perceba que quando ele faz isso: Se envolve em seus projetos, cura sua alma do sofrimento, te conforta e te faz se achegar mais perto dEle, não é Deus que está entrando na sua história. É você que está entrando na grandiosa história de Deus! Uma história em que Deus através de séculos e séculos vem chamando pecadores ao arrependimento, sofredores ao refrigério, perdidos a um novo caminho. E você e eu agora fazemos parte desta grandiosa história – que não é mais nossa, mas dEle!


Então, nunca foi sobre você! Nem por um segundo, foi sobre você! É sobre Deus e o que ele está fazendo no mundo e na história, e como ele nos coloca neste plano divino e nos chama a contribuir neste plano! É sobre Ele nos confortando e moldando para que não olhemos mais o nosso próprio umbigo, mas para além de nós mesmos. É sobre uma nova perspectiva que Ele próprio nos dá a cada manhã. Que ele nos conduza a cada dia para longe dessa percepção egoísta de que é sobre nós. A começar de mim.




quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Que 2017 não seja isso tudo!

Acho que nunca um ano foi tão mal visto na internet como 2016. Sim, reconheço que foi um ano bastante difícil. Crise econômica, crise politica, crise politica que alimenta ainda mais a crise econômica, gente famosa que gostamos morrendo, acidentes de aviões. Tudo isso gerou uma sombria atmosfera para este ano.

Eu mesmo fui afetado pela crise, passei por um triste momento de luto da família, me decepcionei com algumas pessoas, decepcionei algumas pessoas (sim, todos nós vamos decepcionar algum dia) e passei alguns momentos de sufoco – até assalto para variar (meu amigos que o digam). Mas pera lá, que o ano também teve muita coisa boa. Comecei a estudar inglês, fiz cursos edificantes para a minha fé, tomei algumas decisões que vão afetar o resto da minha vida, tive a oportunidade de participar de eventos incríveis, conheci um bocado de gente nova que vou levar pro resto da vida e apesar de não ter conseguido cultivar algumas amizades como gostaria eu acabei cultivando e conhecendo mais outras amizades que antes não dava tanta atenção.

Olhar para todo esse panorama me faz pensar como talvez seja uma injustiça com 2016 taxar ele como um ano assim tão ruim. Sei que cada um teve as suas dificuldades, mas creio que também teve suas alegrias. Isso me lembra de uma passagem curiosa de Eclesiastes, que diz “Quando os dias forem bons, aproveite-os bem; mas, quando forem ruins, considere: Deus fez tanto um quanto o outro, para evitar que o homem descubra qualquer coisa sobre o seu futuro.” (Ec 7.14).  Talvez isso nos lembre de que 2016 foi simplesmente um ano comum. Por que todo ano precisa carregar aquelas marcas de sofrimento e também aqueles momentos de alegria – por que a vida é assim com momentos bons e ruins.

Talvez você olhe para as coisas ruins do seu ano e pense que ele não tenha valido a pena. Mas um ditado que li alguma vez em algum lugar que eu não lembro diz que “o que não nos mata nos fortalece”. E talvez essa seja uma verdade importante que podemos ter aprendido com este ano: Nossos sofrimentos nos trarão aprendizado e crescimento. Talvez “a versão bíblica desse ditado” seja ainda mais clara neste sentido: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Rm8.28). Isso nos ajuda a compreender que de fato, não precisamos que tudo seja um mar de rosas, mas que as tempestades têm algum lugar na nossa vida – e que elas também são dádivas de Deus.Então, nesta perspectiva não quero que 2017 seja um ano de felicidades, ou de prosperidades e esse tanto de coisa que a gente deseja no ano novo. Isto por que numa perspectiva realista já sei que não vai ser. Talvez ele seja menos problemático que 2016, mas creio que para cada um de nós ele vai trazer os seus desafios, seus sofrimentos e suas alegrias. Não por que 2017 tenha algo de especial, mas simplesmente por que a vida é assim debaixo do sol.

O meu desejo para 2017 não é que ele seja um ano melhor. É que eu seja uma pessoa mais contente neste ano. Contente no sentido de saber me contentar e me alegrar com as coisas que receberei do meu Pai celeste neste ano – inclusive os momentos difíceis que também sei que virão. Que 2017 seja ano de ser mais grato à Deus, de aprender com os meus erros e acertos e de servir mais o próximo.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Ei, pare de querer controlar a vida!

Eclesiastes foi um livro da Bíblia que sempre me impressionou. Estando na categoria de sabedoria, ele nos causa certo estranhamento, justamente por ser tão diferente de provérbios, o livro sapiencial por excelência. E creio que isto acontece justamente pelo fato de que Eclesiastes é excessivamente realista. E quando digo realista, quero dizer realista mesmo. Salomão não tem a menor intenção de maquiar a realidade ou nos vender uma imagem de que a vida na terra é um desenho dos ursinhos carinhosos.

A vida é cruel pois o tempo passa, a morte vem para todos e coisas ruins acontecem a pessoas boas (e coisas boas às ruins). Aparentemente a vida é randômica, o sofrimento vem para todos, assim como as coisas boas também vem para todos. Toda essa realidade é altamente confusa, como o vapor que turva nossa visão e não podemos compreender, vapor esse que traduzido como vaidade é quase que o refrão do livro – Tudo é vaidade. Que tipo de sabedoria podemos tirar de um quadro desses?

O fato é que apesar de toda essa loucura que o mundo é, existe um Deus incrivelmente sábio que o governa, e toda essa loucura é apenas decorrente do fato de que não podemos entender como Deus em sua providência ordena todas as coisas. Assim a incrível sabedoria de Eclesiastes é para nós o lembrete perene de que a vida nem sempre –ou quase  nunca – é do jeito que a gente quer que seja. E não precisamos ficar lutando para que ela seja.

A receita de uma vida sábia é então não lutar contra a dura realidade da vida, mas antes, celebrar a providência de Deus em gratidão e contentamento. Compreender que não podemos lutar contra os decretos de Deus, e que ainda que tudo pareça sem sentido, Deus fez uma criação maravilhosa da qual podemos desfrutar é algo fantástico! Isso nos leva a uma vida de verdadeira humildade, uma vez que podemos perscrutar um pouco da grandeza de Deus. E viver em contentamento, obediência e gratidão são o resumo do Temor do Senhor, o principio da sabedoria.




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Pequena confissão

Preciso fazer uma confissão. Acho que ela pode soar meio herege, mas uma coisa que me assombra nos evangelhos é que os discípulos eram meio burrinhos. Ou no mínimo tinham algum problema relacionado à atenção. Talvez se um psicólogo moderno voltasse no tempo e os conhecessem provavelmente os diagnosticariam com TDAH.

Um dos exemplos mais claros é um diálogo bizarro entre Jesus e seus discípulos, que é registrado em Marcos 10. Repare que Jesus faz um comunicado da maior importância: Caros discípulos, estamos indo para Jerusalém onde vou ser torturado, morto e ressuscitar. E de fato este não é um comunicado sem importância, mas eis que dois dos discípulos, Tiago e João, ouvindo isso, fazem um pedido para Jesus: Deixe que nos assentemos um à sua direita e outro a sua esquerda na sua glória.

Ora bolas! Alguém tem que dar uma cutucada bem forte nesses dois! Jesus acaba de falar que ia morrer e eles estão preocupados com coisas como conseguir poder (por que sentar-se a direita e a esquerda de um rei implica em poder e autoridade)! É no mínimo um pedido insensível de alguém que definitivamente não estava prestando muita atenção no que estava acontecendo. E não demora muito para os outros discípulos ficarem indignados com Tiago e João, não por que achassem o pedido falta de tato, mas por que também queria estar nesse lugar de autoridade e poder.

Acho que esse é o momento oportuno para fazer outra confissão: Todo esse lance de chamar os apóstolos de burrinhos e zoar com a cara deles é uma forma desesperada do meu coração de maquiar o fato de que no fundo, sou muito semelhante a eles. Quantas vezes minhas atitudes e ações não são orientadas para ter controle e poder sobre as coisas? Quantas vezes meu coração não cede a desejos infantis de querer que as pessoas façam as coisas do meu jeito ou que elas possam ceder aos meus caprichos. Infelizmente, tem um ditadorzinho que mora dentro de mim.

Mas Jesus nos lembra de algo bastante importante: Entre nós a parada não pode ser assim. Isso mesmo, nós que fomos chamados por Ele não podemos viver almejando poder ou coisas desse tipo, pois o reino dEle é um reino de servos. Ele mesmo veio para servir e entregar a sua vida nós. Então por que nós queremos chegar atrasados e sentar na janela do ônibus?


O fato é que Jesus é uma figura que nos deixa imensamente sem graça. Nos deixa sem graça porque ele é exatamente o oposto do que somos, mesmo quando sabemos que precisamos ser como ele é. Mas, ainda bem que Jesus é uma pessoa que nos deixa imensamente com graça. Nos deixa com graça porque é somente pela graça que nos constrange e muda é que podemos ser um pouquinho parecidos com ele a cada dia. Porque a cada dia que passa sinto o ditadorzinho dentro de mim sendo crucificado – embora não sem gritos de protesto.

domingo, 27 de novembro de 2016

Apenas mais um Blog

Sempre que começo um blog eu o abandono tempos depois. Por que desta vez seria diferente? Não sei. Mas creio que este é um momento oportuno para voltar a escrever em um blog. E de fato, a ideia é que esse seja apenas mais um blog, onde eu, um sujeito que talvez você leitor nem conheça (ou talvez conheça e só esteja lendo esse texto agora por que fiz uma pressão psicológica em você para que leia) rascunha e escreve algumas de suas esplêndidas patéticas ideias sobre a vida e desabafa um pouco sobre os problemas da vida real.

Assim então inauguro apenas mais um blog: Vida em missão.  Uma espécie de diário de bordo da vida de mais um peregrino que estando perdido foi encontrado.  E é por ter sido encontrado que este blog se chama Vida em missão, pois a viagem da minha vida ganhou uma nova direção quando Ele me encontrou.

 É muito claro que todo esse lance de viagem, peregrino, ser encontrado é quase um plágio do que John Bunyan escreveu em “O peregrino” (E nesse momento todos me olham e dizem, nossa, mas que falta de criatividade) e que C. S Lewis também esboçou em Viagem do Peregrino da Alvora (Agora quero ver dizer que o C. S. Lewis também não tinha criatividade). Não é minha culpa que estes eram homens que entendiam das coisas, e muito menos é minha culpa que a realidade que temos em Cristo é a mesma para todos que se encontram com ele.

O fato é que a vida dos peregrinos em Cristo é marcada por uma missão. Uma missão que de fato não é nossa, mas que fomos gentilmente convidados a participar. E este é apenas mais um diário de bordo sobre essa vida em missão, que vai conter algumas devocionais e reflexões sobre a vida e as crises de mais um peregrino entre tantos.